Angariação de Fundos: Prioridade Estratégica ou Escolha Secundária?
- Be Responsible

- 19 de mar.
- 4 min de leitura

Participar em encontros entre organizações sociais é sempre um espaço fértil de aprendizagem e partilha. Mas há encontros que ficam, e o II Encontro de Parceiros da Fundação Primavera Smart Senior foi um deles.
Um encontro que reuniu várias organizações sociais, num ambiente aberto e genuíno, onde fui convidada para ser oradora sobre o tema: angariação de fundos. O objetivo inicial era claro: trazer uma visão geral sobre fontes de financiamento e, acima de tudo, abordar os tabus e preconceitos que ainda existem em torno deste tema.
Como tantas vezes acontece, o plano foi apenas o ponto de partida.
À medida que a sessão avançava, fomos ajustando, parando para discutir, refletir e partilhar. E foi precisamente nesses momentos que surgiram as questões mais relevantes, aquelas que não têm respostas rápidas, mas que abrem espaço para algo mais profundo.
Crescer ou Estagnar: Uma Escolha Estratégica
Houve uma pergunta que acabou por marcar a conversa e que me levou a esta reflexão:
A angariação de fundos deve ser uma prioridade ou uma função secundária?
Esta questão, aparentemente simples, revela uma tensão estrutural no setor social.
Porque, no fundo, todas as organizações enfrentam uma escolha: querem crescer ou estão confortáveis em manter-se como estão?
Se o objetivo for crescer, aumentar impacto, chegar a mais pessoas, diversificar respostas, garantir o futuro da organização, então a angariação de fundos não pode ser acessória. Tem de ser estratégica.
Isso implica investimento. Implica planeamento. Implica pessoas qualificadas.
Quando não o é, acaba muitas vezes reduzida a ações pontuais: enviar e-mails, ativar contactos, reagir a oportunidades. E isso, na melhor das hipóteses, garante sobrevivência, dificilmente crescimento.
Este debate ganha ainda mais relevância quando olhamos para a evolução do setor social. Entre 2009 e 2019* nasceram mais de 24 mil entidades neste universo (em média, quase 2200 por ano), sendo que cerca de 93% das entidades constituídas se encontram ainda ativas. No mesmo período, foram encerradas pouco mais de mil organizações, com uma idade média de 14 anos no momento do encerramento, um valor semelhante aos 13 anos registados nas empresas.
Estes números mostram um setor dinâmico, mas também evidenciam um ponto essencial: a longevidade das organizações depende, em grande medida, da sua capacidade de garantir sustentabilidade ao longo do tempo. E é precisamente aqui que a angariação de fundos assume um papel central.
Os Tabus que Ainda Nos Limitam
Mas antes de falarmos de estratégia, há algo que não pode ser ignorado.
Os tabus. Ao longo da conversa, ficou evidente que ainda existe um conjunto de barreiras muito presentes, não técnicas, mas emocionais e culturais.
O desconforto em pedir. O receio do julgamento. E, talvez o mais silencioso de todos, a vergonha em pedir.
Estes elementos são frequentemente ignorados, mas têm um peso enorme na forma como as organizações se posicionam, ou não, na angariação de fundos.
Reconhecê-los é essencial. Porque só a partir desse reconhecimento é possível começar a desconstruí-los.
O Mito do “Faz-Tudo”
Outro ponto que emergiu foi a realidade de muitas organizações viverem numa lógica de acumulação de funções.
Profissionais que fazem comunicação, angariação de fundos, gestão e muito mais.
E, inevitavelmente, quando tudo é prioridade, nada é verdadeiramente estratégico.
A angariação de fundos exige foco. Exige consistência. Exige integração com a missão e com a visão da organização.
Profissionalização: Uma Decisão, Não um Luxo
Defender a profissionalização do setor social não é importar modelos empresariais de forma acrítica. É reconhecer que sustentabilidade exige competência. E quem me conhece sabe que esta é uma convicção que tenho vindo a defender há muito tempo, não é por acaso, que criei a Be Responsible precisamente para promover dois temas tantas vezes esquecidos no setor social: o fundraising e a comunicação.
Investir em profissionais qualificados de angariação de fundos significa:
Criar estratégias alinhadas com a missão
Desenvolver relações sólidas com doadores
Diversificar fontes de receita
Medir impacto e comunicar valor
Importa também clarificar expectativas: contratar profissionais exclusivamente à comissão pode desvalorizar a função e limitar o compromisso. A angariação de fundos eficaz constrói-se com integração, visão de longo prazo e co-responsabilização - uma perspetiva partilhada por um dos fundadores da Fundação Primavera ao longo do encontro.
Uma Reflexão que Fica
Talvez o mais importante deste encontro não tenham sido as respostas, mas as perguntas.
Como é que cada organização encara a angariação de fundos?
Como algo pontual? Como uma responsabilidade individual? Ou como um eixo estratégico central? Queremos crescer ou estagnar?
Esta reflexão ficou comigo e reforçou a vontade de continuar a partilha e o debate.
Porque, no fundo, não estamos apenas a falar de financiamento. Estamos a falar de ambição, de sustentabilidade e de futuro.
E isso começa sempre por uma escolha.
Escolha essa que passa, inevitavelmente, por olhar para a diversidade de fontes de receita, compreender o seu potencial e perceber de que forma podem ser trabalhadas de forma estratégica. Entre essas fontes, o financiamento junto de empresas assume um papel cada vez mais relevante, exigindo preparação, alinhamento e capacidade de construir relações de valor mútuo.
A propósito, e dando continuidade a esta reflexão, agora focada especificamente numa das fontes de receita, o setor privado, a Be Responsible irá promover em abril a 12ª Edição do Workshop Fundraising Corporativo com a duração de 9 horas, em horário laboral, um espaço onde estas temáticas são aprofundadas e onde se explora, de forma prática, como estruturar abordagens ao fundraising corporativo e desenvolver relações sustentáveis com parceiros empresariais.
Escrito por: @Linda Morango - desabafos puros entre pensamentos, encontros e cafés, sempre na companhia do seu fiel patudo, Freddie, que esteve muito ativo neste encontro ao meu lado… talvez porque tenha deixado pão na mesa.
Referências bibliográficas
Estudo da Informa Maio de 2020 - 1º Edição.



Comentários