Fundraising e Heranças: Humanizar o Apelo e Construir o futuro
- Be Responsible

- 21 de fev.
- 6 min de leitura

Como as organizações em Portugal podem criar campanhas de heranças e legados de forma ética e eficaz.
Quando se fala em fundraising através de heranças ou legados, muitos sentem um desconforto imediato. O tema envolve a morte. Fala-se de testamentos e de um futuro sem nós, um assunto que, durante décadas, foi envolto em silêncio e tabu na nossa cultura.
Mas, quando olhamos verdadeiramente para o significado deste gesto, percebemos que não se trata de morte. Trata-se de continuidade. Trata-se de valores. Trata-se da vontade profundamente humana de continuar a cuidar, mesmo depois de partir.
Lembro-me da primeira vez que abordei este tema numa organização onde colaborava. A reação foi imediata:
“Credo Linda, fazer uma campanha sobre morte?”
Talvez faltasse contexto. Talvez faltasse tempo. Talvez eu não o tivesse sabido explicar bem. Talvez faltasse bom senso da minha parte. Ou talvez simplesmente ainda não estivéssemos preparados. E está tudo certo com isso.
A verdade é que, ainda hoje, raramente vemos campanhas de comunicação em Portugal sobre legados solidários. Mas vemos algo igualmente revelador: organizações a disponibilizar informação sobre heranças nos seus sites e ofertas de emprego específicas para legacy fundraisers.
Algo está a mudar.
E isso significa que estamos a começar a abrir espaço para falar de legado, e não apenas de perda.
Porque é que falar de morte continua a ser um tabu?
Muitos de nós evitamos falar sobre a morte. Na verdade, também não gosto particularmente de falar sobre a morte. Mas, há cerca de 3 ou 4 anos, numa formação que ministrei no Porto, conheci a Compassio, uma organização social que promove os Death Café, integrados no movimento internacional Death Café. São encontros informais, ao estilo de uma tertúlia, onde o tema é a morte. O objetivo é simples e profundamente humano: combater o tabu, relembrar a finitude da vida e a importância de a viver bem.
E fiquei fascinada pela naturalidade com que se falava da morte.
No fundo, seguindo o lema dos Death Café: porque a morte faz parte da vida, então falemos dela.
Mas o desconforto existe, e vem de vários lados:
a perceção social da morte como “o fim”, associada à perda e à dor;
o receio de parecer oportunista ao abordar este tipo de contributo;
a dificuldade em enquadrar um pedido que fala de ausência, mas que, na verdade, propõe continuidade.
Contudo, quando mudamos o foco, da morte para o legado, tudo muda.
O que se pede não é que alguém dê algo agora.
O que se propõe é que alguém possa continuar a fazer a diferença depois de partir.
O que é o fundraising através de heranças e legados?
O chamado legacy fundraising consiste em convidar apoiantes a incluir uma organização no seu testamento, garantindo que continuam a apoiar uma causa que lhes é querida mesmo após a sua partida. Em Portugal, esta é uma forma de doação que segue regras legais específicas, garantindo transparência e segurança tanto para o doador como para a organização beneficiária.
O legado pode assumir diferentes formas:
Percentagem do património: o doador indica uma percentagem do seu património que será destinada à organização;
Valor específico: o doador define um montante em dinheiro a ser entregue após o falecimento;
Bens ou ativos específicos: imóveis, obras de arte, ações, veículos ou outros bens materiais podem ser legados;
Legado condicional: é possível indicar que o valor ou bens sejam usados para projetos específicos ou fins concretos da organização.
Em Portugal, é importante que os doadores compreendam o conceito de quota disponível e quota indisponível: a quota indisponível é reservada obrigatoriamente aos herdeiros legitimários (filhos, cônjuge ou pais), enquanto a quota disponível pode ser livremente deixada a uma organização ou instituição de solidariedade. Um advogado ou notário pode ajudar a garantir que o legado cumpre a lei e é exequível.
Esta forma de angariação de fundos é considerada extremamente sustentável: não representa qualquer encargo financeiro durante a vida do doador, mas permite que organizações continuem a beneficiar do apoio e possam planear o futuro com mais segurança.
Para efeitos de contextualização internacional, no Reino Unido, mais de 4 mil milhões de euros por ano são angariados através de doações deixadas em testamento, sendo este um dos canais mais relevantes e duradouros de financiamento do setor social.
O grande valor do legacy fundraising está na sua continuidade: permite que os apoiantes perpetuem os seus valores e causas, transformando vidas e fortalecendo organizações mesmo após a sua partida.
Campanhas internacionais inspiradoras
Reino Unido
Uma das campanhas mais conhecidas é a da Will Aid. Desde 1988, esta campanha já angariou mais de 24 milhões de euros. Durante o mês de novembro, advogados renunciam aos seus honorários na elaboração de testamentos, convidando os participantes a doar esse valor a organizações sociais.
Outro exemplo é da Dogs Trus - a campanha “Leave a gift in your Will” é responsável por uma parte significativa das receitas da organização. A comunicação é clara e emocional:
Não fala de morte, fala de amor pelos animais que ficará para sempre.
Espanha
Em Espanha, os nossos hermanos contam com uma iniciativa nacional dedicada exclusivamente a este tema: HazTestamentoSolidario.org. Esta plataforma reúne dezenas de organizações e explica de forma simples:
como fazer um testamento solidário;
qual o enquadramento legal;
qual o impacto possível.
O objetivo é normalizar o legado como forma de cidadania.
O que se faz em Portugal?
Portugal existem vários exemplos relevantes. Destacamos aqui apenas dois:
Aldeias de Crianças SOS - permite que pessoas deixem parte do seu património para apoiar crianças em situação de vulnerabilidade.
O caso emblemático da Fundação Amália Rodrigues. Antes de morrer, Amália decidiu criar uma fundação e deixar parte do seu património à causa cultural e social. Esse legado permite hoje:
apoiar artistas;
desenvolver projetos culturais;
promover o fado;
apoiar causas sociais.
Amália não deixou apenas bens. Deixou uma missão viva. É um dos exemplos mais claros em Portugal de como um legado pode perpetuar valores.
Dados e contexto português
Cerca de 65% dos portugueses fazem pelo menos uma doação anual, mas apenas 2–3% das receitas das organizações sociais vêm de legados, mostrando grande potencial de crescimento.
62% dos adultos nunca fizeram testamento nem planearam o destino do seu património, o que limita a utilização de legados como ferramenta de fundraising.
Em termos legais, apenas a quota disponível do património pode ser livremente deixada a uma organização, enquanto a quota indisponível é reservada a herdeiros legitimários.
Como criar uma campanha de legados: cuidados essenciais
Normalizar o tema sem o tornar pesado - falar de legado como continuação de valores. Falar de continuidade, não de morte.
Comunicação empática e gradual - newsletters, eventos, testemunhos, histórias de impacto.
Educação e apoio jurídico - materiais claros sobre como incluir a organização no testamento.
Transparência - mostrar resultados tangíveis e histórias de vida.
Respeitar o doador e a família - decisão livre, sem pressão ou culpa.
Um legado não é uma decisão impulsiva e pode ser alterado a qualquer momento.
2º Edição da Masterclass: Fundraising Heranças e Legados
Para organizações interessadas em aprofundar este tema, será lançada, no dia 23 de março, das 14h às 18h, a 2.ª edição da Masterclass online dedicada ao fundraising através de heranças e legados, ministrada pela especialista em fundraising, Filipa Morais.
Filipa Morais Santos tem a base da sua formação na área do direito e direitos humanos. Trabalhou no Projeto Face to Face na Amnistia Internacional, onde também fez parte da direção nacional, tendo sido Presidente da AI-Portugal no ano de 2018. Estagiou na Embaixada de Portugal na Áustria, na Representação Permanente junto da OSCE.
Integrou a equipa da Aldeias de Crianças SOS Portugal em 2016, como Coordenadora do Projeto Face to Face, função que desempenhou até assumir a Direção do Departamento de Angariação de Fundos e Comunicação, cargo que ocupou até setembro de 2022.
Em outubro de 2022, abraçou um novo desafio profissional como Global Fundraising Advisor na SOS Children's Villages International, onde colabora com equipas de diversos países, apoiando o desenvolvimento de estratégias de angariação de fundos a nível internacional.
Nesta Masterclass serão abordados os seguintes conteúdos:
Porquê fazer fundraising de heranças;
Quem? Como? Quando? - enquadramento jurídico;
Como planear uma estratégia de fundraising de heranças;
Principais ações para captar potenciais doadores;
Fidelização dos doadores de heranças;
A importância da comunicação e o perfil do fundraiser;
Jornada do doador de heranças: exercício prático.
Mais informações/inscrições em:
https://www.academiaberesponsible.com/fundraisingdeherancas ou para o email: info@academiaberesponsible.com.
Referências bibliográficas e institucionais
Estudos internacionais sobre legacy fundraising
Legacy FuturesLegacy Giving Report: https://www.legacyfutures.com/
Relatório recomendado: https://www.legacyfutures.com/reports/legacy-giving-report/
Institute of Fundraising Remember A Charity Programme: https://www.rememberacharity.org.uk/
Sargeant, Adrian & Jay, Elaine (2014) Legacy Fundraising: The Ultimate Guide. Editora: Directory of Social Change
Routley, Catherine & Sargeant, Adrian (2015) Fundraising, Philanthropy and Society
Estudos sobre doação e filantropia em Portugal
Fundação Calouste Gulbenkian - Estudo: Doação em Portugal
Banco de Portugal - Dados sobre património e heranças: https://www.bportugal.pt/
Pordata: Estatísticas sociais https://www.pordata.pt/
Esscrito por: @Linda Morango: desabafos puros entre pensamentos, cafés e dietas (nem sempre cumpridas), e idas ao ginásio (nem sempre cumpridas) e sempre na companhia do seu fiel patudo, Freddie.



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